Do coração corinthiano
- Manoel Costa
- 19 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
Era manhã do dia 18 de maio de 2014. Um domingo típico: eu acordava tarde, almoçava frango ou costela assada enquanto assistia Esporte Espetacular na TV e depois caía num limbo de tédio e expectativa até as 16 horas, quando começava a transmissão do futebol na Globo. Nesse período normalmente passavam programas de qualidade bem duvidosa, o que só aumentava a minha tensão.
Mas pra que tanta comoção? De onde vinha toda essa expectativa domingueira? Ora, meus caros, não era um domingo de futebol qualquer. Era a estreia da Arena Corinthians, o primeiro jogo oficial do Timão dentro da sua mais nova casa: Corinthians x Figueirense. Todo corinthiano que se preze estava emocionado neste dia histórico. Por isso, a já costumeira e tediosa tarde de domingo se estendeu mais do que o normal.

Com a barriga cheia de costela assada, decidi matar o tempo jogando o PES 2014 (Pro Evolution Soccer 2014), famoso jogo de futebol para videogames e computadores da empresa japonesa Konami. Peguei o Corinthians e coloquei numa partida contra o Figueirense, esse era o meu aquece para a partida de logo mais. Depois de uma goleada de 5x0, me sentia menos ansioso. Afinal, era Corinthians x Figueirense, o time dos caras não tinha sequer pontuado ainda no campeonato brasileiro, o que poderia dar errado?
Emplaquei mais algumas partidas, esperando chegar as fatídicas 16 horas. O tempo foi passando, e quando o relógio já passava das 15 horas e 30 minutos, senti algo de estranho. Minha visão ficou turva, a força dos braços foi desaparecendo e percebi que caía lentamente da cadeira. Não lembro mais nada a partir dai.
Algum tempo depois recobrei a consciência, aos poucos. Ao meu redor percebi o interior de uma ambulância. Do lado direito, dois socorristas, e na esquerda, minha mãe, a Dona Ivone, que me olhava atentamente. Ela percebeu que eu tinha acordado e se debruçou mais perto da maca, perguntando como estava, essas coisas. Mas, na minha cabeça, só tinha uma coisa que eu queria saber. Uma única e específica informação que me faltava naquele momento.
“Mãe, quanto ficou o jogo do Corinthians?”
Ainda me lembro da confusão estampada no rosto dela, e dos risos dos enfermeiros ao lado. Pelo horário, o jogo já tinha começado, mas minha mãe não fazia ideia do que estava acontecendo em campo, nem ninguém naquela ambulância. Foi assim que cheguei ao Hospital Regional João de Freitas, em Arapongas, no norte do Paraná, completamente isolado de Corinthians x Figueirense. Me levaram até um quarto onde a TV não funcionava. As enfermeiras não tinham informação alguma da partida. Nem rádio tinha por ali.
Minha mãe ficou do lado de fora, enquanto fiquei só, naquele quarto. Além de mim, minhas únicas companhias eram a cama de latão que rangia por qualquer movimento, a TV desligada, as paredes cinzentas já descascadas pelo tempo e minha mente rodando a mil por hora, imaginando como estaria o jogo. Ah, também tinha uma dor aguda na testa, embaixo dos curativos, que não ajudava em nada.
A essa altura do campeonato pode-se perguntar o que diabos aconteceu comigo. Bem, de forma resumida, tive uma convulsão. Caí desacordado no meu quarto enquanto jogava PES 2014, me debati no chão por alguns minutos feito um jogador argentino em fases finais da Libertadores, e cortei a testa na quina da escrivaninha. Minha mãe me encontrou e chamou a ambulância, aí foi quando acordei. Agora precisava ficar algumas horas em observação e somente a noite poderia retornar para casa. Ou seja, só iria saber do resultado da partida a noite, horas depois da partida acabar. Não poderia existir tortura maior para um pobre rapaz corinthiano naquele domingo que de típico já não tinha mais nada.
As horas passaram vagarosamente. Minha mãe já estava no quarto comigo. Aguardávamos juntos pela minha liberação. Em meio a letargia da espera, uma médica entrou no quarto e me deu alta. Finalmente! Me troquei no banheiro do quarto e saí caminhando junto da Dona Ivone. Um tio viria nos buscar no hospital, e então eu poderia perguntar pelo placar do jogo.
No estacionamento, a noite já estava avançada, meu tio se aproximou para nos guiar até o carro. Mal cumprimentei, e já fui direto ao que interessava, “Quanto ficou o jogo do Corinthians?”. Ele riu e me disse, “1x0 pro Figueira”. Alguma coisa na expressão dele me dizia que era uma piada, talvez fosse o riso, ou o absurdo da situação, mas não consegui acreditar totalmente nele. Minha mente ainda trabalhava com uma boa vitória do Timão, mas agora com uma sombra de temor e dúvida. Será que o pior havia acontecido?
E era exatamente isso que aconteceu: o pior cenário. Em casa, corri pro computador ver o resultado do jogo, e lá estava o maldito placar: Corinthians 0x1 Figueirense, em plena inauguração da Arena Corinthians. Gol de um tal de Giovanni Augusto, que futuramente ainda viria a vestir as cores alvinegras. Que tragédia.
Depois do ocorrido, fiz todo tipo de exame para tentar identificar de onde tinha surgido aquela convulsão. Desde cardiologistas até neurologistas, nada foi encontrado. Estava 100% saudável, então o que explica a convulsão? Eu nunca tive dúvidas sobre a causa:
Doutor, eu não me engano
Meu coração é corinthiano
Doutor, eu não me engano
Meu coração é corinthiano
Eu não sabia mais o que fazer
Troquei um coração cansado de sofrer!
Ah! Doutor, eu não me engano
Botaram outro coração corinthiano¹
1 - "Transplante de Corintiano", também conhecida por "Coração Corintiano", é uma famosa marchinha de Carnaval composta em 1968 por Manoel Ferreira, Ruth Amaral e Gentil Junior, que ganhou notoriedade na voz de Silvio Santos.




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